Produção de tintas imobiliárias chega a 1,5 bilhão de litros, enquanto consolidação da indústria amplia desafios para o varejo.
O mercado brasileiro de tintas mantém uma trajetória de expansão, sustentada pelo desempenho da produção e pelo crescimento da rede de comercialização. Dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) mostram que o país produziu 1,5 bilhão de litros de tintas imobiliárias em 2025, volume equivalente a aproximadamente 75% de toda a fabricação nacional. O setor registra faturamento anual superior a R$ 40 bilhões.
O desempenho coloca o Brasil como o quarto maior produtor mundial de tintas. Nos últimos cinco anos, as vendas destinadas ao segmento imobiliário cresceram 10%, enquanto a demanda futura encontra espaço adicional em um mercado marcado por um déficit habitacional estimado em cerca de seis milhões de moradias.
A expansão também aparece no varejo. Segundo o Instituto Anamaco, o comércio especializado em tintas e materiais para pintura encerrou 2025 com 10.596 estabelecimentos, crescimento de 3,21% sobre o ano anterior. A atividade corresponde a 6,6% dos CNAEs específicos do varejo de materiais de construção.
Consolidação modifica relações no mercado
Além do crescimento orgânico, o setor atravessa movimentos de consolidação que podem modificar as relações entre fabricantes, distribuidores e pontos de venda. Entre eles está a aquisição da Suvinil pela Sherwin-Williams, operação que amplia a presença da companhia no mercado brasileiro e pode repercutir sobre estratégias comerciais e de distribuição.
Para Patricia Abreu, arquiteta e professora do curso de Arquitetura e Urbanismo do Ibmec-BH, empresas de maior escala tendem a ampliar sua capacidade de investir em tecnologia, qualidade e desenvolvimento de produtos. A especialista pondera, entretanto, que uma redução no número de fornecedores também pode aumentar o poder de negociação da indústria e limitar a concorrência.
Roberto Falcão, professor de Marketing, CX e Gestão de Varejo da ESPM, avalia que a consolidação ultrapassa uma simples redistribuição de participação de mercado. O processo pode modificar o equilíbrio entre indústria e varejo, especialmente para pequenos e médios comerciantes que negociam com fornecedores detentores de portfólios mais amplos e marcas com forte reconhecimento.
Nesse cenário, inovação, suporte técnico, serviços e relacionamento ganham importância como instrumentos de diferenciação. Para os fabricantes, o desafio passa por converter ganhos de escala em soluções capazes de agregar valor ao mercado. Para os varejistas, cresce a necessidade de construir experiências de compra e serviços que ultrapassem a oferta do produto.
Varejo busca equilíbrio entre exclusividade e variedade
A transformação do mercado também coloca em evidência diferentes modelos de distribuição. Lojas exclusivas permitem maior controle da experiência da marca, padronização da exposição e especialização das equipes, enquanto operações multimarcas preservam a comparação entre produtos e fornecedores e fortalecem o papel consultivo do varejista.
Na avaliação dos especialistas ouvidos pela Revista Anamaco, os dois formatos encontram espaço no mercado brasileiro, atendendo desde consumidores orientados por preço e variedade até profissionais especificadores interessados em atendimento especializado e soluções diferenciadas.
Danilo Gil, diretor de Compras da Todimo, considera que movimentos como a aquisição da Suvinil pela Sherwin-Williams devem repercutir sobre diferentes elos da cadeia, incluindo desenvolvimento de produtos e relações comerciais já estabelecidas. Para a varejista, a categoria de pintura integra o segmento de acabamentos, sua principal fonte de faturamento, com estratégias direcionadas a exposição, variedade e atendimento.
Com produção elevada, expansão do número de lojas e maior concentração entre grandes fabricantes, o mercado brasileiro de tintas entra em uma etapa na qual escala, inovação, distribuição e experiência de compra tendem a assumir peso crescente na competição.


